10 de mar de 2011

''Eu queria ser, na vida do rapaz, a freira que mudou minha vida''. Chalita cativa estudantes com autoajuda


"Todo mundo já se sentiu um dia como um patinho feio". O deputado federal Gabriel Chalita (PSB-SP), o segundo mais votado do Estado, estava diante de uma extasiada plateia de 400 estudantes na Universidade de Mogi das Cruzes quando decidiu falar da freira que mudou sua vida. Ele tentava obter seu primeiro mestrado e se deparou com um orientador que desqualificou seu texto e acabou rasgando-o. Arrasado, foi resgatado por uma freira nos corredores da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em São Paulo, onde estudava. Ele reformulou o trabalho e obteve o título de mestre.

A reportagem é de Cristiane Agostini e publicada pelo jornal Valor, 10-03-2011.

"Um dia, um menino veio dizer que ele era burro, que não conseguia aprender", continuou, relatando sua atuação como secretário estadual de Educação, em São Paulo, no governo de Geraldo Alckmin, quando ajudou um dos internos da Febem (atual Fundação Casa) que trabalhavam com ele. "Eu queria ser, na vida do rapaz, a freira que mudou a minha vida", diz. "Não há ninguém burro. O que existe é dificuldade no aprendizado. Mas é possível vencer as limitações", disse, em um dos vários momentos de autoajuda da palestra para dezenas de estudantes.

Único pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, Chalita é recebido por uma plateia de universitários munidos de máquinas fotográficas, papel e caneta nas mãos. Acotovelados perto das paredes e sentados em cadeiras e no chão, os estudantes mantiveram-se em silêncio por uma hora e cinquenta minutos, enquanto Chalita domina o palco, mesclando conceitos de filosofia e princípios de autoajuda a um discurso motivacional. "A ética está ligada ao convívio. É preciso enxergar o outro e não permitir que ele se sinta invisível", ensina. "Às vezes um 'oi' que você dá para alguém abre a perspectiva para uma pessoa naquele momento", diz.

No palco, a política passou de relance pelo discurso do deputado de 41 anos, professor, apresentador e autor de 54 livros. Ele explica à plateia que é deputado federal e que no próximo ano haverá eleição. "É preciso levar mais gente para política. A política é feia, mas tem que entrar para melhorá-la", comenta. A discussão sobre a possível migração do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), para o PSB fica de fora do auditório.

De posse do microfone, Chalita prefere usar exemplos de sua vida pessoal para se aproximar dos estudantes. "Fui o primeiro a ter diploma universitário na minha família. Meu pai era analfabeto, foi servente e feirante. Imagino tudo o que passou. Quando a gente olha para as nossas raízes tem que se orgulhar", comenta.

Durante as quase duas horas de palestra, poucos alunos saíram do auditório. Vestido com uma calça jeans, camisa e um blazer escuro, Chalita caminha de um lado para o outro do palco, enquanto discursa. Ele mistura com naturalidade suas histórias a passagens bíblicas, notícias do jornal e conceitos de filosofia. O tema da aula, "A ética como essência para a felicidade humana", é abordado sem palavras rebuscadas ou frases complexas.

O silêncio só é interrompido por risadas. "Por que homem não presta?", questiona, reproduzindo a pergunta feita por uma de suas alunas em uma aula. O burburinho aumenta. Chalita conta o caso da menina, traída pelo namorado, que a trocou por uma amiga, para citar o filósofo Jean Paul Sartre e explicar que o ser humano não "sofre pelo o que foi embora, mas sofre por ele mesmo". "Sofre por suas perdas e pela rejeição. A gente vive de projeção", explica. "O sofrimento é um sentimento muito bonito. Você fica nu quando sofre", diz.

Discursar para uma plateia cheia de jovens não parece problema para Chalita, que é professor de graduação e pós-graduação da PUC e do Mackenzie, em São Paulo. A formação acadêmica dele também ajuda a explicar a fluência entre os diferentes temas citados. O educador é formado em Direito e em Filosofia, fez mestrado em Ciências Sociais e em Direito e é doutor em Comunicação e Semiótica e em Direito.

A trajetória pessoal ganha novamente destaque quando Chalita prega "que a vida é muito curta para a gente complicá-la com sentimentos desnecessários". Ao falar sobre sofrimento, ele lembra da morte de três irmãos - um nasceu morto, o outro morreu em um acidente de carro e o outro, com síndrome de Down, por problemas de saúde.

Mais alguns minutos se passam e Chalita conta outra história para amolecer os corações. Sua trajetória como escritor e autor de meia centena de publicações começou dentro de um asilo, aos 12 anos, por incentivo de uma das moradoras do local, dona Ermelinda. "Ela corrigia todos os textos que eu escrevia. Em casa minha mãe não me deixava ler, porque achava que iria estragar a 'vista'. Ia para o asilo e ficava enfiado lá", contou. Com a ajuda da tutora, sua primeira obra, uma carta para Deus, virou um livro premiado. Com 20 anos, Chalita já tinha 15 livros publicados. No fim da vida, dona Ermelinda fez um último pedido a Chalita: "Peça aos meus dois filhos que venham me visitar. Só você me visita", diz, reproduzindo o pedido. O silêncio foi interrompido novamente por um intenso "ohhhhhhh", com tom de lamento.

Para quebrar o drama, ele lembra de uma grande paixão da juventude, Maria Tereza, sua melhor amiga na época. Ao reencontrá-la anos depois, viu que o tempo não passou de uma forma muito boa para a mulher e demonstrou um pouco de alívio de ela ter ficado em seu passado.

A facilidade na oratória de Chalita é treinada também como apresentador no programa de rádio e TV da emissora católica Canção Nova. Sua trajetória política está ligada à vida religiosa, apesar de os dois temas passarem rapidamente em seu discurso. Chalita começou na política por incentivo do falecido governador André Franco Montoro, que o viu discursar aos 15 anos em Bananal, no interior paulista, quando ele estudava para ser padre. Três anos depois, desistiu do sacerdócio quando começou a namorar e aceitou o convite de Montoro para trabalhar com ele.

A despedida de Chalita, após declamar um poema de Menotti Del Picchia, é interrompida por gritinhos femininos animados de "lindo, lindo!". E a fila, perto do palco, começa a se formar.

José Augusto Peres, vice-reitor acadêmico da universidade, observa com satisfação o aglomerado de jovens que aguardavam o fim da palestra para as fotos e autógrafos. "Ele é visto como educador, não como político". Segundo Peres, nada foi pago a Chalita para fazer a aula inaugural da faculdade, na noite de quinta-feira da semana passada, no campus da capital. "No ano passado ele fez uma palestra que foi vista por mais de mil alunos. A procura foi tamanha que exibimos a palestra em telões". O convite para uma nova palestra deve se repetir em breve. "Quando perguntamos aos estudantes quem eles querem ouvir, Chalita aparece em primeiro lugar", diz. "Ele está sempre no topo da lista."


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